14 de ago. de 2008

O Combustível da Autoconfiança



(por Kau Mascarenhas)


Desarrumada e mal vestida, a menina negra, magra pela fome e não pela anorexia, desceu o morro carioca para tentar a sorte no programa de calouros de Ary Barroso. Era o momento áureo do rádio que, dos anos de 1930 a 1950, revelou grandes nomes da MPB.

Na fila de inscrições estavam lindas jovens bem vestidas e a menina favelada olhava para elas sem qualquer medo. Tinha apenas treze anos e já era mãe. Seu bebê estava doente e ela precisava fazer algo para conseguir algum dinheiro. No corredor os calouros aguardavam o chamado e em seguida entravam trêmulos.

- Elza Gomes da Conceição, sua vez! Após ouvir seu nome, a menina cruzou a porta do estúdio. Cerca de mil pessoas a aguardavam. O programa era o maior sucesso na época e no palco estava o grande Ary Barroso, autor de “Aquarela do Brasil”, pois ele próprio acompanhava os calouros ao piano.

Ao ver a menina com no máximo 35 quilos, subindo ao palco completamente desengonçada, usando uma roupa emprestada e ajustada com alfinetes para conter as sobras de pano, duas marias-chiquinhas, a platéia explodiu na risada.O apresentador do programa arrumou os óculos e disse, friamente:

- Aproxime-se.

Ela ignorou as gargalhadas e foi até ele.

- O que você veio fazer aqui? – perguntou intrigado.- Ué, eu vim cantar. – disse ela com o ar mais inocente desse mundo.- Mas quem disse a você que você canta? - Eu! – falou com voz firme.- Diga-me uma coisa: de que planeta você veio? – questionou de forma ácida.

Ela respirou fundo e lhe respondeu:

- Eu vim do planeta-fome, seu Ary. Do mesmo planeta de onde o senhor veio.

Nesse momento o auditório se calou. Ali estava uma adolescente cheia de bravura, desafiando o grande ícone da música brasileira, lembrando que ele próprio também tivera um berço pobre e que havia passado por dificuldades acerbas como as que ela no momento passava.

Silencioso, Ary apontou para ela o microfone e deslizou seus dedos no teclado em seguida.

A menina então começou a cantar com a voz afinada e ao mesmo tempo arranhada, rouca, única, apresentando efeitos que ninguém jamais tinha ouvido.

No final, o mesmo público que riu tanto dela em sua chegada vibrou de emoção e encheu o estúdio de palmas. Ela as recebeu chorando, abraçada com Ary que, igualmente muito emocionado, disse:

- Senhoras e senhores, nesse exato momento acaba de nascer uma estrela.

Elza Soares, em seu livro “Cantando para não Enlouquecer”, narra sua história repleta de momentos de superação como esse.Podemos nos perguntar: o que faz alguém como ela chegar à vitória, vencendo obstáculos tidos com intransponíveis, atravessando oceanos de dificuldades?

O que move uma alma na direção da excelência em qualquer área, fazendo com que até mesmo os maiores problemas se transformem numa espécie de combustível para vôos mais altos?

O que produz essa certeza de que não há porque recuar e que vale seguir adiante?

Resposta: Auto-confiança.

Ter convicção do nosso próprio potencial e sentir que é possível fazer algo valioso, com aquilo que já guardamos em nosso interior, é uma espécie de elemento mágico que promove a química do sucesso.

Pessoas que não acreditam em si mesmas acabam não deixando aflorar o imenso poder que já possuem.

Mas aqueles que têm convicção das suas habilidades e talentos e que, por outro lado, também são capazes de reconhecer seus pontos fracos, se colocam no caminho do crescimento. Ter auto-conhecimento para perceber aquilo que podemos melhorar não significa sentir-se pequeno, fraco, mas representa poder de percepção para melhorar continuamente.

Portanto, se confiamos em nós mesmos podemos ver, com tranqüilidade, aquilo que nos falta, ao mesmo tempo em que notamos aquilo que já possuímos de bom.

Esse duplo foco nos desperta uma grande energia na busca dos nossos propósitos.

Como dizia Henry Ford: “Se você acredita que pode ou se você acredita que não pode, de qualquer jeito estará certo”.

Estou convicto de que a história de Elza Soares, essa fantástica cantora da nossa terra, pode ser inspiradora para você.

Ela nos lembra o quanto podemos fazer diferença no mundo quando, diante das dificuldades, respiramos fundo, acessamos recursos latentes e seguimos firmemente na direção dos nossos sonhos.

Vou dizer algo para você e espero que lembre sempre disso. Duas palavras bem simples mas que expõe a minha crença de que você tem grande força interior, bem como o meu desejo de que mostre ao mundo seu potencial.

As palavras são: Você pode!
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13 de ago. de 2008

Canção das Mulheres



Que o outro saiba quando estou com medo e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não se vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos se precisar ficar um pouco quieta.

Que, se estou apenas cansada, o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a ideia da perda e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade, mas talvez por culpa ou acomodação.

Que, se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo de que é culpa dele, ou que não o amo mais.

Que, se estou numa fase má, o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde, nem dizendo: "olha que estou a ter muita paciência contigo".
Que, se me entusiasmo por alguma coisa, o outro não a despreze nem me chame de ingénua, nemqueira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.

Que, se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro - filho, amigo, amante, marido - não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não posso ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que embora às vezes me esforce, não sou nem devo ser a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa ... uma mulher!

(Trecho de uma crônica de Lya Luft )

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11 de ago. de 2008

Uma Deusa Sábia e Guerreira



ATENA - Deusa das Artes e da Sabedoria


Métis, personificação da prudência, ia dar à luz um filho de Zeus. Ao consultar o Oráculo de Gaia, o deus soube que em seguida viria um filho que lhe tiraria o trono, assim como Zeus fizera a seu pai, Cronos. Temeroso, Zeus engoliu Métis, assegurando seu reinado.
Dias depois, sentindo uma dor lancinante na cabeça, chamou Hefestos, o deus do fogo e do metal. Este, que era o ferreiro divino, golpeou o crânio do pai com seu machado e viu surgir uma mulher adulta, já vestida com uma armadura e um elmo de ouro e portando um escudo e uma lança nas mãos. Era Atena, nova encarnação da sabedoria divina, deusa da justiça, que completara seu crescimento e nascera da cabeça do pai. Assim que a viu, Hefestos (Vulcano) reclamou-a como esposa como pagamento pelo serviço prestado a Zeus.
Mas Atena desejava manter-se virgem. Os gregos antigos não concebiam que uma grande virtude pudesse ser atribuída a uma mulher. Foi este o fato que deu origem à lenda do nascimento de Atena, ou Minerva. Pois o surgimento de uma deusa sábia e guerreira não poderia se dar pelo ventre materno. As qualidades masculinas de Atena (Minerva) não seriam aceitas se a deusa fosse leviana e libertina como as outra imortais olímpicas. Para ganhar e manter o respeito de guerreiros e povos inteiros, manteve-se virgem, num pudor avassalador que chegou a causar desgraças. Quando o gigante Palas tentou violenta-la, por exemplo, foi assassinado, e de sua pele foi feito o aigis, manto da virgindade. Para que não esquecessem sua vitória, adotou o nome de Palas Atena, sob o qual era invocada pelos gregos para proteger suas cidades. A sabedoria de Atena se traduz em sua belicosidade.
A deusa é uma divindade guerreira, mas usa sua força apenas de forma defensiva. Atena luta pela justiça e por seus ideais, visando a paz e encarnando o ideal bélico.Não só por seu caráter de justiça, Atena é considerada uma divindade civilizatória. A ela são atribuídos a criação da flauta e do leme, a fertilidade dos campos e rebanhos, os potes de barro para conservação de alimentos e a arte da tecelagem.

O caráter ideal de Atena parece ter sido forjado pelo escultor grego Fídias, pois seu busto da deusa, de uma fisionomia calma, forte, consciente e lúcida, passou a ilustrar os principais atributos de Atena.Esta famosa estátua, esculpida em ouro e marfim ficava no Partenon, templo mais importante consagrado à deusa em Atenas. A deusa era representada de pé, empunhando uma lança e coberta com seu manto protetor, a égide e a sua túnica. Interessante é que toda a rica ornamentação em ouro da estátua podia ser retirada com facilidade, pois era mister, quando a república se via em apertos, poder recorrer ao tesouro público, do qual a deusa era depositária.
Com todos estes atributos, Atena era uma deusa adorada e respeitada por toda a Grécia. Muitas festividades eram realizadas em sua homenagem. Algumas das mais importantes eram as Panatenéias, em Atenas, quando as melhores tecelãs iam à Acrópole carregando imenso manto, os homens ofereciam ramos de oliveira e os jovens galopavam cavalos selvagens. Havia corridas, lutas e torneios de poesia e música em homenagem à deusa. O objetivo religioso da festa era cobrir a deusa de um véu novo em substituição ao que fora gasto pelo tempo. Mas o objetivo político era ressaltar aos olhos das cidades vizinhas, a proteção de Atena.

ATENA E POSEIDON

O culto de Atena foi criado na cidade que recebeu seu nome pelo rei Cécrope, se difundindo depois por algumas cidades do Egito. Era costume na Grécia Antiga que toda cidade fosse consagrada a um deus. Quando Cécrope anunciou que recém fundara uma cidade, Atena e Poseidon se oferecem como protetores. Muitos outros deuses haviam se interessado, mas logo perceberam que a disputa teria de ser entre os dois.

Tanto Poseidon quanto Atena exprimiam forte desejo de proteger a nova cidade, e nenhum dos dois parecia disposto a abrir mão de sua vontade. O rei Cécrope decidiu, então, que os cidadãos escolheriam o deus que desse à cidade o presente mais útil. Assim foi feito, mas a população estava dividida. Os marinheiros apoiavam o deus dos mares e os guerreiros aclamavam a coragem da deusa. Poseidon se adiantou e batendo na terra com o tridente, criou o cavalo e fez jorrar uma fonte de água do mar, querendo dizer com isso que seu povo seria navegador e guerreiro.

Atena, por sua vez, domou o cavalo, transformando-o em animal doméstico, e, batendo na terra com a ponta de sua lança, criou uma oliveira carregada de frutos, mostrando que seus protegidos seriam grandes agricultores.Cécrope percebeu que a oliveira lhes seria mais útil e batizou a cidade com o nome de Atenas, em homenagem à nova deusa protetora. Mas Poseidon, sendo deus dos mares, não podia ser esquecido em uma cidade costeira. Os atenienses, então, ergueram na Acrópole um altar ao Olvido, monumento de reconciliação de Poseidon e Atena; em seguida, Poseidon participou das honras da deusa e retirou a maldição que jogara sobre a cidade.

Assim, os atenienses tornaram-se um povo navegador e ao mesmo tempo agrícola e manufatureiro. A partir de então, Atena passou a usar cavalos no capacete, como prova de sua reconciliação com Poseidon, a quem era consagrado o cavalo.Esta célebre disputa foi tema de um dos dois frontões do Partenão, esculpidos por Fídias, cujos fragmentos fazem parte do Britsh Museum em Londres nos dias atuais.
Atena foi cultuada em sua montanha santa, a Acrópole durante séculos. A confiança que a deusa inspirava, só começou a perder força e acabou por desaparecer com a influência cristã.



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